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São Paulo, 11 de janeiro de 2003

Meu caro Goffredo:

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A leitura de suas memórias me deu um grande prazer. Creio que com elas você realizou de maneira exemplar uma nova modalidade no gênero, servida pela escrita sempre adequada, de naturalidade perfeita. Chama desde logo a atenção o tom de absoluta sinceridade, aliada não obstante a uma discreta reserva que nunca expõe o mais íntimo. A seguir, percebemos que quem escreve é alguém de perfeita retidão, além de ser capaz de transmitir tanto a experiência de vida quanto as operações da inteligência. Vida, pensamento, afetos, convicções, impressões foram tecidos com maestria numa unidade rica e diversa, que faz o leitor ter acesso a uma carreira norteada pela procura constante, por vezes angustiada, da verdade e da justiça.

Tudo isso, e muito mais, faz do seu livro uma leitura que prende o tempo todo, feito raro quando pensamos que são quase mil páginas. Parece-me que além da sinceridade invariável, esse efeito de se deve às características singulares da fatura e ao corte peculiar da sua jornada de vida.

Quanto à fatura, é eficiente o jogo temporal dos capítulos, que em vez de se engrenarem numa seqüência linear, eventualmente monótona, vão e vêem, esposando o ritmo da memória. Ainda quanto à fatura, nota-se um modo pessoal de inserir as idéias no curso dos fatos, com uma naturalidade e, eu diria, uma necessidade que faz do pensamento algo vital, coextensivo à experiência. De fato, há no livro dezenas e mesmo centenas de páginas que, em mãos rotineiras, poderiam parecer dissertações intercaladas, mas que você soube transformar em matéria visceralmente trançada com a vida. No campo largo formado por esta, aqueles momentos de reflexão se alteiam como afloramentos naturais, suscitados por uma oportunidade qualquer: exercício da profissão ou de cargo, concurso, palestra, debate parlamentar. Considero traço pessoal muito eficiente essa fusão orgânica do vivido e do pensado.

A esse respeito, nada mais significativo do que as declarações e reflexões relativas à docência, que “afloram” diversas vezes no curso do relato, porque a docência foi uma das “razões” da sua vida. Devo dizer que raras vezes tenho lido coisa tão importante, tão justa e tão bela sobre o nosso ofício quanto as páginas que você lhe consagrou, com paixão e perfeita lucidez. É um verdadeiro tratado do magistério fundido ao âmago do seu modo de ser.

Como este “afloramento” há outros, de natureza mais especulativa. É o caso de tudo o que se relaciona à concepção do Direito, é o caso das reflexões filosóficas, manifestando a sua experiência de jurista e de pensador, tudo subordinado a uma constante diretriz de natureza ética e social, coroada pelo fecho dos direitos humanos, uma das chaves da sua atividade mental e da sua vida de lutas.

Mas não esqueçamos os blocos, digamos pragmáticos, que decorrem do seu profundo amor pelo país e da sua percepção dos problemas de natureza econômica, além de revelarem o lado político ao qual tende o seu pensamento. Penso nos projetos relativos à sericicultura, ao algodão, à instrução pública, à organização do ensino, à difusão da arte.

Quando falei acima na singularidade da sua jornada, pensei no que se pode chamar o subsolo do livro, percorrido por paradoxos, por correntes contraditórias que funcionam provavelmente como fator dinâmico, despertando no plano do pensamento e no da conduta o esforço de superar o choque dos opostos, unificando-os por meio da razão e das convicções. Eu diria que é contraditório o fato de ser você fruto da velha classe dominante paulista e, no entanto, ter assumido cada vez mais atitudes e idéias frontalmente contrapostas a elas, ou melhor, às dominações que as sucederam. De fato, são constantes a sua aversão à ordem imposta, a sua revolta contra as prepotências, o seu horror aos privilégios. Dentro do “filho-família” de corte aristocrático “aflora” o inconformado, que deseja cada vez mais a superação da ordem capitalista por uma sociedade mais igualitária. A análise das contradições mostra que, para você, o apego à tradição, que reponta aqui e ali no texto, não é convite ao recuo ou à paralisia, mas reservatório de energias para a mudança. Nem poderia ser de outro modo, tendo em vista o meio ao mesmo tempo tradicional e francamente amigo das inovações no qual você se criou, sob a inspiração de maiores como sua admirável avó.

(...)


Seu de sempre,

Antonio Candido