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SESSÃO DO DIA 14 DE SETEMBRO DE 2000

 

Sob a presidência do Acadêmico Carlos Nejar, Secretário-Geral, estiveram presentes os Acadêmicos: Antonio Olinto, Tesoureiro; Geraldo França de Lima, Diretor da Biblioteca; João de Scantimburgo, Diretor da Revista Brasileira; Eduardo Portella, Diretor dos Anais da ABL; Alberto da Costa e Silva, Alberto Venancio Filho, Arnaldo Niskier, Candido Mendes de Almeida, Carlos Heitor Cony, Celso Furtado, Evandro Lins e Silva, Ivan Junqueira, Josué Montello, Lêdo Ivo, Marcos Almir Madeira, Marcos Vinicios Vilaça, Murilo Melo Filho e Oscar Dias Corrêa.

- O Presidente em exercício, Acadêmico Carlos Nejar, ao abrir a sessão para a entrega solene do Prêmio Senador José Ermírio de Moraes ao escritor Goffredo da Silva Telles, pelo seu livro A folha dobrada; lembranças de um estudante, passou a compor a mesa, que ficou assim constituída: Dr. Renato José Giusti, representando o Doutor José Ermírio de Moraes Filho; o Acadêmico Evandro Lins e Silva, orador da solenidade; Acadêmico Josué Montello, Decano da ABL; e o Acadêmico Antonio Olinto, Tesoureiro. Com a palavra o Acadêmico Evandro Lins e Silva para falar em nome da ABL.

- O Acadêmico Evandro Lins e Silva discursou, em nome da Academia, saudando o premiado, escritor Goffredo da Silva Telles, e agradecendo à família Ermírio de Moraes, instituidora do grande prêmio que confiado à Academia Brasileira de Letras é por ela entregue todos os anos, sob a invocação de seu instituidor. (O texto lido será incorporado aos Anais da ABL.)

- O Presidente em exercício, Acadêmico Carlos Nejar, pediu ao Acadêmico João de Scantimburgo para entregar o diploma, que é o registro do significado desta solenidade.

- O Doutor Renato José Giusti, representando o Doutor José Ermírio de Moraes Filho, proferiu algumas palavras ao fazer a entrega do prêmio ao escritor Goffredo da Silva Telles.

- O Presidente em exercício, Acadêmico Carlos Nejar, deu a palavra ao escritor Goffredo da Silva Telles.

- O Sr. Goffredo da Silva Telles discursou agradecendo a outorga do Prêmio Senador José Ermírio de Moraes.

- O Presidente em exercício, Acadêmico Carlos Nejar, agradeceu as presenças e encerrou a sessão.

 


ENTREGA DO PRÊMIO JOSÉ ERMÍRIO DE MORAES

AO PROFESSOR GOFFREDO TELLES JÚNIOR

 

Sessão de 14 de setembro de 2000

 

DISCURSO DO ACADÊMICO EVANDRO LINS E SILVA

 

A princípio pensei que o convite do nosso presidente em exercício para falar, em nome da Academia, nesta solenidade de entrega do Prêmio José Ermiro de Moraes ao professor Goffredo Telles Júnior, fosse um devaneio do poeta Carlos Nejar, ou mais uma de suas expansões cordiais e carinhosas para com este velho confrade, admirador de seus versos mágicos e ‘viventes’. Era tudo isso, mas era também a designação do presidente, em termos de convocação, sem o rigor das ordens irrevogáveis, mas temperada com o agrado, o mimo, a deferência afetuosa do colega promotor público ao decano dos advogados criminalistas do país. Ao mesmo tempo o agraciado era um jurista eminente, mestre e educador de muitas e muitas gerações de bacharéis e doutores, diplomados pela famosa e veneranda Faculdade de Direito de São Paulo, das Arcadas ou do Largo de São Francisco. A preferência deve ter obedecido, também, ao conhecimento, não revelado pelo presidente, de que o escolhido, além de grande admiração, tinha e tem pelo laureado de hoje, uma empatia que sempre sentiu ser desvanecedoramente recíproca, pois começamos ambos nossa vida profissional no Tribunal do Júri, ponto de partida de uma longa caminhada, escola de democracia, o povo na Justiça, onde aprendemos e adquirimos a consciência de que o direito deve, antes de tudo, servir à Vida. Somos pessoas da mesma geração e atravessamos quase por inteiro, o breve século XX, assim adjetivado pelo grande historiador inglês Eric Hobsbawm, que o divide em dois períodos distintos: a primeira metade foi a era das catástrofes, com duas guerras mundiais de permeio, e a segunda a era de um extraordinário avanço tecnológico e científico, como não se via desde a idade da pedra. No Brasil, turbulências políticas diversas encheram os fastos de nossa história. Na idade em que iniciávamos o nosso curso de estudantes do direito, éramos uma mocidade desinformada, à procura de rumos, recebendo notícias imprecisas, vagas, distantes, parciais, dos acontecimentos internacionais. Não sabíamos ao certo, para um julgamento de valor, o que estava ocorrendo no mundo. Idealistas, formávamos opiniões apressadas e marchávamos, emocionalmente, para as duas vertentes mais notórias e mais extremadas, que a nossa imaginação acolhia como a solução ideal para resolver os problemas da humanidade. Não tínhamos rádio, nem televisão, as comunicações eram poucas e chegavam atrasadas. Livros eram raros os que vinham às nossas mãos. Éramos jovens, tínhamos pressa, queríamos exercitar, pôr em prática nossos ideais generosos. Queríamos participar.

O professor Goffredo Telles Júnior registra, no excelente livro autobiográfico que o galardoou com o merecido prêmio conquistado, a inquietação dos jovens da década dos 30, à procura de novos caminhos, descrentes dos partidos políticos tradicionais. Por impulsos sinceros, não amadurecidos, por sentimentos nobres, de certo, visando o bem, deixavam-se empolgar pela pregação dos turiferários das correntes que se apresentavam mais ostensivamente. Alguns aderiam ao partido comunista, outros ao integralismo. Era uma dicotomia maniqueísta.

Em São Paulo e no Rio de Janeiro, as perplexidades da mocidade eram as mesmas. As defecções, mudanças ou correções acontecidas depois, em tantos e tantos casos, confirmaram a irreflexão da posição antes apressuradamente assumida. Cada um de nós conhece e pode apontar dezenas de apostasias entre políticos, professores, magistrados e até sacerdotes.

Goffredo Telles Júnior, no meio de suas dúvidas de natureza doutrinária, mas com as certezas assentadas no atrevimento e na petulância da juventude, ingressou no integralismo, mas não era uma convicção com esteio filosófico; era o jovem entusiasta que queria abreviar o começo de sua participação.

Fez política estudantil e, mais tarde, foi deputado federal, na Constituinte de 1946. Devo acentuar e proclamar que o nosso agraciado, ao longo da vida, sempre se conduziu com a mais rigorosa probidade intelectual. Como faz até hoje, na cátedra e nas suas manifestações de cidadão e de homem público.

O livro premiado é um manancial riquíssimo de informações sobre uma vida de estudo e de trabalho, em que o autor, apesar do exercício de atividades outras, em vários setores, retrata o que sempre foi e é essencialmente: o professor, o mestre, o preceptor, o educador.

Conforta-me a afinidade que nos liga, desde o começo de sua carreira, quando ele defendeu no júri dois casos, em ambos revelando competência e conquistando justificado êxito. O seu primeiro concurso foi para a cadeira de Direito Penal, matéria que sempre o atraiu e de cujo feitiço e quebranto não consegui até hoje me livrar...

Vou lendo o livro Folha dobrada e me encontro dentro dele com colegas e amigos ilustres. Lá está o meu caríssimo Noé Azevedo, em cujo livro em sua homenagem, ainda em vida, coordenado por Theotonio Negrão, colaborei, dele traçando o perfil do penalista, criminólogo e penitenciarista de relevo, além de professor e advogado, presidente durante anos seguidos da Ordem dos Advogados de São Paulo, freqüentador assíduo da tribuna do Supremo Tribunal Federal no período em que tive a honra de integrá-lo. Lá estão Marrey Júnior, Canulo Mendes de Almeida, Cirilo Júnior, Jorge Amado, Mário de Andrade, Antônio Cândido, Aníbal Machado, Prado Kelly, a lista seria interminável. Leio, ainda, nova declaração de amor, “velha paixão pelo Tribunal do Júri” (p. 405) e “advogado criminal símbolo” (p.399). Lá está, também, seu nacionalismo, na defesa da campanha “o petróleo é nosso”, trazendo à lembrança a figura emblemática de Barbosa Lima Sobrinho, nosso saudosíssimo confrade.

Deixou o Direito Penal mas não arrefeceu a benquerença pelo Júri. Tornou-se catedrático de Introdução à Ciência do Direito. Seria impossível resumir o livro inteiro.

Ao recordar o seu amigo e mestre insigne Spencer Vampré, recordei o concurso de Hermes Lima, na Faculdade do Rio de Janeiro, em 1932, com o notável professor paulista sentado à mesa da banca de examinadores. Por associação de idéias, vi que o nosso professor Goffredo Telles Júnior é também filósofo e admirador de Bergson. Na inquirição de um dos candidatos, talvez Alcides Bezerra ou José Maria Bello, o professor Vampré, em determinado instante, deu mostras de estar surpreendido e extasiado quando exclamou, em tom amável e simpático: “estou feliz... há muito tempo não encontrava, nas minhas andanças, em concursos e conferências, um bergsoniano...”

Vou descobrindo colegas e amigos pelo livro adentro, fatos e acontecimentos de nossa política. San Tiago Dantas elogiado por sua brilhante atuação na Conferência de Punta del Leste, resistindo bravamente ao rompimento de relações com o governo de Cuba, e o nosso caro confrade Celso Furtado também recebendo marcante elogio por seu Plano Trienal, elaborado em 1963, e pela bela conferência que proferiu no Centro 11 de Agosto. Apareço também em amável referência.

Não esquece discípulos ilustres, hoje professores das Arcadas, Fábio Konder Comparato e Dalmo Dallari.

Cada vez mais se apega à sua Casa, a Faculdade do Largo de São Francisco, e Fábio Comparato destaca esse amor pela escola no discurso que proferiu sobre o livro premiado pela Academia.

Na sua intensa vida docente ainda encontra tempo para publicar livros, artigos, conferências, até uma notável obra: Filosofia do Direito, em 1965 o 1o volume, e em 1967, o 2o volume.

Há longos trechos de temas debatidos em aulas. O livro do professor Goffredo Telles Júnior é um verdadeiro compêndio da história política e cultural de nosso tempo, escrito por mão de mestre, em escorreito vernáculo. Dono de uma vasta cultura geral, de um conhecimento universal do direito e de uma admirável atualização dos atuais progressos científicos, em que a velocidade das descobertas, no terreno das comunicações e da biologia, parecem não dar tempo ao seu acompanhamento, o mestre paulista sabe e ensina com a clareza de um incomparável didata que, “na matéria do mundo, o primeiríssimo sinal da vida é a operação de comando executada pelo DNA, no núcleo da célula”. E o faz de modo que só os grandes cientistas sabem desenvolver, resume o tema, dando uma límpida noção que até os porteiros da sala de aula entendem, em linguagem simples e clássica, como neste trecho modelar:

 

“Hoje sei que o fenômeno da vida no ser humano não se diferencia, em seus elementos físicos primários, do fenômeno da vida nos demais organismos. No homem, no elefante, no protozoário, na alga, na violeta, no jequitibá, a oficina profunda da vida é sempre a mesma: a mesma em sua estrutura, a mesma em seu funcionamento.

O instrumental da célula única de uma ameba é o mesmo instrumental das células, de uma árvore ou de uma flor, de uma lesma ou de um leão, de um paquiderme ou de um Miguel Ângelo.

É sempre a mesma oficina, o mesmo instrumental produzindo a enorme diversidade dos seres vivos: a profusão dos gêneros, das espécies e dos indivíduos. Causa assombro a identidade de natureza da vida, dentro da multidão biótica do mundo.”

 

Não é possível deixar de dizer que o nosso agraciado é um cientista do direito, que se mantém atualizado e, mais do que isso, já escreveu um livro – Direito quântico – cujo título revela que ele já nos oferece verdadeiras antecipações do futuro.

Falemos, agora, do Mecenas, que dá nome ao prêmio concedido, com toda a justiça, a Goffredo Telles Júnior, o engenheiro pernambucano José Ermiro de Moraes, que um dia chegou a São Paulo e começou a realizar a sua obra de pioneiro e desbravador da industrialização do Brasil. Enquanto a elite da época plantava café, ele fincava chaminés, iniciando com extraordinária visão do futuro, uma nova etapa no desenvolvimento do país. Foi um lúcido precursor da implantação de modernas tecnologias, que se multiplicavam e estimulavam a formação de artífices, de novos ofícios, de peritos para dirigir o funcionamento de máquinas, ainda não conhecidas dos nossos trabalhadores, um criador de atividades e empregos. Instalou um conglomerado de empresas, tanto mais úteis à nossa economia porque nacionais, e seus lucros aqui são reinvestidos, em novos empreendimentos. José Ermiro de Moraes marcou a sua presença, impôs uma liderança incontrastável no meio empresarial. Deixou-se, em certa época, seduzir pela política, aceitou o convite do presidente João Goulart para ingressar no Partido Trabalhista Brasileiro e candidatar-se a senador por seu estado natal. Dou um testemunho pessoal, porque de Jango ouvi, vezes diversas, o apreço em que tinha o senador José Ermiro, tanto que o convidou para integrar o seu ministério quando o plebiscito de 3 de janeiro de 1963 derrubou o parlamentarismo adrede instalado para reduzir ou mesmo anular os seus poderes de Chefe do Governo. Nessa época, exercendo a Chefia da Casa Civil da Presidência da República, travei amistosas relações com o Senador, então ministro de Estado, que se sentia, em certos momentos, amargurado por uma burocracia que não lhe dava meios de agilizar e executar projetos necessários ao desenvolvimento do país. Desse relacionamento guardo a amável recordação do convite do Senador José Ermiro para um fim de semana na sua aprazível Casa da Bertioga.

Agora, o registro de uma significativa coincidência. No livro premiado, o professor Goffredo conta:

 

“Um dia o Senador José Ermírio de Moraes, presidente da Diretoria da Fundação da Real e Benemérita Sociedade Portuguesa de Beneficência (e dono da Votorantin)” mandou consultá-lo sobre se estaria disposto a narrar, num discurso, a história daquela entidade, durante a sessão solene de 17 de outubro de 1960, comemorativa do seu 101o aniversário. Diz o nosso homenageado que aceitou “a honrosa responsabilidade do discurso, que o Senador solicitou”: – “Sobremaneira fascinantes eram os fastos de que me pediram a narrativa.” O encantamento do escritor Goffredo Telles Júnior está descrito nas páginas do livro, com este final enternecedor: “E assim foi... que a utopia de um caixeiro de armarinho se transformou na Real e Benemérita Sociedade Portuguesa de Beneficência.”

 

Por esse episódio, fica a certeza de que o nosso Mecenas tinha em alta conta, apreço e estima o Professor Goffredo Telles Júnior. Os manes de José Ermiro de Moraes, nesta hora, estão a aplaudir a opção da Academia Brasileira de Letras, pois, numa antecipação simbólica já havia em vida feito essa escolha há quarenta anos passados.

Aos filhos do notável brasileiro – Mecenas deste prêmio – Drs. Antonio Ermiro de Moraes e José Ermiro de Moraes Filho e seus familiares, que lhe têm seguido a trilha luminosa, fazendo-a brilhar cada vez mais intensamente, com a ampliação da obra de seu pai, a Academia manifesta o seu regozijo e a sua satisfação, ao promover esta solenidade, no merecido culto à memória do engenheiro e industrial José Ermírio de Moraes, cuja imortalidade está assegurada pelas chaminés que plantou pelo Brasil adentro.

A Academia felicita, mais uma vez, o professor Goffredo Telles Júnior, por sua magnífica obra A folha dobrada; Lembranças de um estudante, reconhecendo que ela representa uma notável contribuição à cultura brasileira. Não é possível diante da revolução científica que se opera no mundo, com a engenharia genética, que quer produzir o próprio ser humano, como se fosse Deus, desprezar as mudanças sugeridas neste livro fascinante:

 

“As revelações da Biologia Moderna hão de ter, por força, reflexos importantes nas disciplinas do comportamento humano. À luz dos novos conhecimentos, muitas concepções e muitas leis envelheceram. Em conseqüência, disposições importantes nas áreas da Moral e do Direito precisam ser conscienciosamente revistas e substituídas. Uma nova Ética precisa ser criada.

Por exemplo, estão a exigir a reformulação as definições de responsabilidade e de capacidade, de culpa e de crime, de pena e de indenização. Estão a exigir completa mudança os regimes de tratamento dos infratores e a chamada ‘tipologia criminal’. Estão a exigir total transformação as ‘medidas prisionais’ de cadeia e penitenciária. Até mesmo a ordenação referente à ‘união’ entre pessoas (no capítulo dedicado à família) parece requerer novo tratamento.

Mas o que de mais urgente está a reclamar transformação é a própria idéia da Moral e do Direito.”

 

DISCURSO DO ESCRITOR GOFFREDO DA SILVA TELLES JÚNIOR

 

Senhores acadêmicos; eminentíssimos amigos.

Meu coração está em alvoroço. Evandro, irmão, por favor, capte a onda que de mim emana, pois não sei exprimir em palavras esta comoção de que me acho possuído; ela emite uma mensagem subliminar, que palavra nenhuma é capaz de traduzir.

Eu bem o conheço, mestre Evandro, não de hoje, mas de sempre, pelo que sempre me disseram, a seu respeito, amigos muito queridos e comuns, e pelo noticiário vastíssimo da imprensa. Eu o conheço, mestre Evandro, pelas suas extraordinárias defesas no Tribunal do Júri de minha terra. Eu o conheço pelo seu modo todo especial de descobrir o segredo que agita, muitas vezes, as almas dos transviados. E eu o conheço pelo seu lindo livro O salão dos passos perdidos, livro que fez o encantamento dos intelectuais do Brasil, e que encheu de emoção até aqueles que nada entendem de Direito.

Que honra para mim, mestre Evandro, ser saudado por um homem com a sua história e a sua personalidade! Prêmio Senador José Ermírio de Moraes. Senhores acadêmicos, é de longa data o meu relacionamento com o senador, pois me lembro muito bem do convite que ele me dirigiu para proferir o discurso que descrevo no meu livro, e que mestre Evandro referiu em seu magnífico discurso. O que me impressiona, nessa história que relato no tal discurso, é que, na verdade, ele não foi mais do que o relato de um sonho, de uma utopia, de um sonho, sim, de um sonho de um rapazinho português, que trabalhava como caixeiro numa casa de roupas em São Paulo.

Trabalhava ele o dia inteiro atrás do balcão, e sob o mesmo balcão, dormia à noite. E uma noite, teve um sonho, um sonho poderoso, o sonho de que era necessário unir os seus patrícios, os seus portugueses patrícios que, em São Paulo, viviam doentes de saudade da terrinha distante, da mulher deixada em Portugal, dos filhos, de todos aqueles que estavam em São Paulo, mas que sonhavam em se unir novamente com a sua família. E deste sonho, sonho poderoso, como são poderosas as grandes utopias, deste sonho, surgiu a sociedade dos portugueses, unidos uns aos outros por um extraordinário amor de cooperação, de relacionamento verdadeiro e amoroso, criando-se, afinal, a Real e Benemérita Sociedade Portuguesa de Beneficência, da qual é parte esse hospital de primeira linha, que é o Hospital da Beneficência Portuguesa.

Sonho e utopia. Eu não sei, meus amigos, sempre me tem impressionado muito, sempre me enlevam os sonhos e as utopias que dirigem, na verdade, os dias e as aventuras do homem sobre a Terra.

E aqui estou, meus patrícios, eminentes acadêmicos, aqui estou, na tarde de hoje, na Academia Brasileira de Letras. Meu Deus! Vínculos muito antigos me prendem a grandes imortais do passado: Alberto de Oliveira, Olavo Bilac, Coelho Neto, Graça Aranha, Olegário Mariano, Ronald de Carvalho, Ribeiro Couto, todos eles freqüentavam a minha casa, a casa de meus pais, a casa da minha avó e madrinha, Olívia Penteado, introdutora da pintura moderna no Brasil, introdutora de Picasso no Brasil, de Léger, no tempo em que esses homens eram considerados quase como loucos, como desvairados da pintura, com os seus traços e suas cores, que ninguém conseguia entender corretamente.

Ai, minha casa antiga onde nasci, onde passei a minha infância e a primeira juventude, junto com esses intelectuais todos e de todos os ramos da inteligência e da criação! Tarsila. Tarsila foi minha professora de desenho. Villa-Lobos, meu amigo da vida inteira, que, naquele tempo em que eu era ginasiano, me deu lições, as minhas primeiras lições de violão. Paulo Setúbal era meu amigo muito especial; eu era ginasiano, ele já tinha escrito A marquesa de Santos, mas viajávamos, vez ou outra, para Santos, naquele trem puxado na íngreme Serra do Mar, ainda por cabo de aço. Eu ia com Paulo Setúbal para Santos, visitar Martins Fontes e Humberto de Campos.

Me lembro, e esta é uma lembrança muito querida, me lembro de Aloísio de Castro, o suave poeta desta Academia que, uma tarde, para o chá das terças-feiras de Olívia Penteado, chegou com um livrinho, que me deu de presente. Ele se havia interessado pelas minhas leituras. Meu Deus! Leituras de ginasiano, e ele me trouxe,naquele volume, as Odes de Horácio e me introduziu na beleza dos poetas latinos.

Agora, aqui estou e não sei com que palavras hei de exprimir a gratidão infinita do meu coração, pelo gesto que acaba de me ser feito. O meu livrinho é uma crônica, é uma crônica de fatos realmente vividos neste século, desde a Semana de Arte Moderna em 1922, no Teatro Municipal, desde o tempo de Mário de Andrade, de Oswald de Andrade, em nossa casa, e depois, a luta política de meu pai, chefe de Partido, antes de 1930, em luta com o Partido Democrático.

Me lembro que, quando Getúlio venceu em 1930, venceu pelas armas, dizem alguns que ele venceu também pelo voto, isto até hoje não ficou muito bem esclarecido, mas me lembro do dia em que, defronte das janelas de nossa casa na rua Conselheiro Nébias, Getúlio passou em carro aberto, com o seu gesto célebre que fascinava as multidões. Ele, tendo ao lado um general, e do outro lado, Júlio de Mesquita, que o fora buscar no Rio Grande do Sul, em nome do Partido Democrático.

Em 1932, eu era soldado na Revolução Constitucionalista de São Paulo. Era ginasiano ainda. Entrei na Faculdade de Direito, na nossa Academia do Largo de São Francisco, em 1933, e então, começou a minha luta propriamente política. Sempre fui um político. Meus amigos sempre me chamaram de subversivo, acho que realmente tenho um pouco a alma de um subversivo, porque nunca estou satisfeito com a ordem que aí está. Acredito no sonho e o sonho é sempre subversivo; então, dono deste sonho que dirigiu a minha vida, a minha vida inteira, realmente, tenho sido, de uma certa maneira, um subversivo lutando por uma ordem jurídica melhor, pela realização de um ideal de justiça, ao lado de companheiros maravilhosos.

Na minha Faculdade, recebi lições fantásticas, não só durante o tempo de estudante, porém, também, durante todo o meu tempo de professor; professor, sim, mas estudante, estudante até hoje. Me sinto estudante, um estudante participante, estudante sempre buscando a realização de uma utopia, querendo sempre mais justiça, uma ordem jurídica mais perfeita do que a ordem que temos. Minha Faculdade do Largo de São Francisco, Faculdade de sonho e de utopia, Faculdade da ordem jurídica, Faculdade de poesia, de poesia. Aprendi na minha escola que o Direito e a poesia estão sempre entrelaçados.

Vejam, senhores acadêmicos. Quando chegamos no Largo de São Francisco em São Paulo, e queremos entrar em nossa Faculdade, notamos imediatamente três grandes arcos de entrada, e no alto destes arcos, cravados na pedra, três nomes. Nomes de juristas, grandes juristas: Rui Barbosa, Clóvis Beviláqua, Teixeira de Freitas? Não. Senhores acadêmicos, ali estão: Fagundes Varela, Castro Alves, Álvares de Azevedo. Três poetas saudando quem aborda a Faculdade de Direito.

E na nossa Faculdade, o nosso pátio, nosso pátio interno, que é o pátio das arcadas, pátio de pedra, jardim onde sempre floresceram os poetas e os juristas. O Direito e a poesia exprimem formas de harmonia, porque a ordem jurídica o que deseja, o que almeja, é a harmonia, é a ordem entre os seres humanos. Há um sentimento de harmonia, que faz com que o jurista e o poeta andem sempre uns ao lado dos outros. Até hoje, um dos jornais principais da nossa categoria profissional tem a última página de todos os exemplares dedicada às poesias dos nossos juristas. A harmonia é o verdadeiro sonho do jurista.

Um dia, um moço aflito encontrou Jesus, numa vereda da Terra, e perguntou: “Mestre, que devo fazer para merecer o Céu?” E Jesus respondeu: “Ama teu próximo como a ti mesmo.”

Senhores acadêmicos, este maravilhoso mandamento não é um mandamento jurídico, mas é, na verdade, o fundamento básico de toda a ordem jurídica. O verdadeiro legislador, quando faz as suas leis, o que ele quer é a harmonia entre os seres humanos, que os seres humanos se amem uns aos outros. Este é o ideal, esta é a utopia, é isto, em verdade, que, fundamentalmente, inspira a legislação na sua base, nas suas origens.

O amor, meu Deus, que sonho! O amor. Estou me referindo ao amor e, imediatamente, sinto a minha alma voltar-se para aquela mulher que ali está, Maria Eugenia. Ela sabe amar.