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MESTRE GOFFREDO

 

Honra maior não há para um aluno do que ser convidado a falar dos seus mestres. Por isso, com grande emoção, recebi o convite de Olívia, para dizer algumas palavras sobre o seu pai, Goffredo da Silva Telles Jr., que comemora 90 anos. O nosso breve relato está circunscrito ao período denominado “Anos de Chumbo”. Cinzenta era a atmosfera política, jurídica e cultural deste tenebroso período da nossa História. Crivada de balas muitas vidas se perderam em sua travessia.

 

Estudei na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco de 1971 a 1975. Portanto, sob os governos militares de Médici e Geisel. Em outubro de 1974 fui eleito Presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto. Em janeiro de 1975 tomei posse e em janeiro de 1976 entreguei o cargo ao meu sucessor. Entre outros tantos acontecimentos, dois eventos dramáticos ocorreram durante a minha gestão: os assassinatos de Herzog e de Manuel Fiel Filho. Momentos inesquecíveis para todos aqueles que militavam na política estudantil.

 

O “XI de Agosto”, para a maioria silenciosa, era pouco mais do que um porão a ser raramente freqüentado. Para outras duas minorias (“esquerda” e “direita”) era o palco onde se desenrolava a História. O mestre Goffredo, unanimidade entre os alunos, jamais foi indiferente (como a imensa maioria dos professores do período) ou deixou de participar das lutas do “XI de Agosto”. A começar das eleições para o “Centro”, cujas apurações dos votos só eram possíveis (devido à violência da “direita”) graças à presença, na Sala dos Estudantes, dos professores Goffredo, Dalmo Dallari e Miguel Reale Jr.

 

Mas a bem da verdade histórica, é preciso dizer que a luta que travamos, nos “Anos de Chumbo”, foi uma luta solitária e cheia de angústias. Devido à intensa repressão ao movimento estudantil, ao terror que pairava sobre as universidades brasileiras, ao silêncio comprometedor da maioria dos mestres das Arcadas, além do apoio explícito de alguns à Ditadura, poucos foram aqueles que se arriscaram a participar da resistência democrática. Era mais fácil se omitir. Era mais vantajoso aderir. O difícil era resistir. Mais do que difícil era combater.

 

O mestre Goffredo está entre os poucos combatentes naqueles anos tenebrosos. O nosso isolamento no “XI de Agosto”, convertido num ninho de “subversivos” e “gente perigosa” pelo discurso oficial, vez ou outra era quebrado pela visita amiga e incentivadora do grande mestre das Arcadas. A sua simples presença não só nos enchia de ânimo, como também legitimava a nossa luta. E Goffredo sempre aparecia por lá, para uma troca de idéias, para saber dos companheiros presos, para emprestar o seu sólido apoio moral e acadêmico.

 

O teste decisivo de “quem era quem” veio com o assassinato de “Wlado Herzog”. No dia 29 de outubro de 1975, inúmeras faculdades da USP já se encontravam paralisadas e mobilizadas para o culto ecumênico: Comunicações e Artes, Economia, Psicologia, Filosofia e Letras, Ciências Sociais, História e Geografia, Física, Química, Matemática, Politécnica, Biologia, Geologia, Arquitetura e Urbanismo, Farmácia e Medicina [O Estado de S. Paulo, 29/03/75].

 

Faltava a adesão das Arcadas. A Faculdade de Direito sempre foi um símbolo das lutas políticas. Então, todas as atenções se voltaram para ela. Internamente, a mobilização dos estudantes e dos professores foi dificílima. Resistência da “direita”, ameaça de bombas, prisões, e um convite “amistoso” feito pelo Delegado-Geral de Polícia que tentou, em vão, nos convencer a esvaziar a assembléia estudantil e abortar a greve. Um frenesi tomou conta do pátio das Arcadas. Aqueles poucos professores que sempre nos apoiavam, entre eles Goffredo, estavam por lá. Indignados, estupefatos com aquele assassinato covarde e brutal.

 

No dia 30 de outubro, realizamos as duas assembléias. A do período diurno, a palavra de ordem acatada foi: Greve! Todos ao culto ecumênico! A assembléia do período noturno foi ainda mais enfática: além da greve e da adesão ao culto, foi proposto e amplamente aprovado que a “Tribuna Livre” fosse coberta com uma tarja negra. No dia 31 de outubro daquele ano fatídico, o “Estadão” noticiou com destaque: “Arcadas aderem; a USP está parada”.

 

Restava a difícil tarefa de colocar a tarja negra na “Tribuna Livre”. Enquanto os velhos companheiros, após uma rápida concentração na faculdade, se dirigiram a Praça da Sé, eu e o diretor do “XI de Agosto”, Luiz Baptista Pereira de Almeida Filho, fomos até a rua Senador Paulo Egídio comprar a tarja negra. Em seguida, outro drama: havia policiais por todos os lados, filmando e fotografando (Operação Gutemberg) todos os movimentos próximos da Praça da Sé, com especial ênfase para aqueles oriundos do Largo São Francisco.

 

O Corajoso “Bap”, auxiliado por Ricardo Carrara, a despeito da intimidação policial, enlutaram a “Tribuna Livre”. Missão cumprida. Com isso, partimos para o culto ecumênico. Na Praça da Sé, milhares de paulistas que para lá afluíram em massa davam uma clara demonstração do seu repúdio ao regime criminoso. Dentro da Catedral, olhei atentamente ao redor, e mais uma vez identifiquei os semblantes carregados dos poucos e queridos mestres das Arcadas, democratas em tempo integral (e não ao sabor das conveniências), presentes naquele ato que se transformou no crepúsculo da Ditadura.

 

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José Manoel de Aguiar Barros – Presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto, gestão 1975.