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Noventa anos de Goffredo*

Walter Ceneviva

Conheci pessoas da família Silva Telles ao longo de decênios e em circunstâncias das mais diversas. Assim foi com Jayme, a propósito de matéria registrária de imóvel, com Ignacio, por interesses comuns na área do direito. O caso de Olívia foi diferente: antes que se fizesse advogada tivemos contato nesta Folha e fora dela, por causa de sua atividade como jornalista. Maria Eugênia e eu estivemos juntos, durante alguns anos, no conselho da AASP (Associação dos Advogados de São Paulo). Contatos sempre amáveis e oportunos, enriquecedores, pois nunca se limitaram a assunto específico, desbordando para discussões sobre arte, sobre filosofia ou jornalismo.

 

O ponto comum, em relação às alternativas indicadas, foi Goffredo. Nas linhas entrecruzadas com sua família pude fixar seu perfil a contar de posição privilegiada. Mestre Goffredo, admirável amigo, irmão de Jayme e Inácio, pai de Olívia, marido de Maria Eugênia. A família se espalha por vários ramos, mas estes, que indiquei, são aqueles com quem travei conhecimento ao longo da vida. Por essas e por outras, abandonei a idéia de um resumo biográfico sobre Goffredo Silva Telles Junior e preferi acentuar seu lado de ser humano querido e respeitado, cuja cultura alargada em muitos campos do saber tem estimulado os mais jovens e difundido idéias em permanente diálogo fraterno, sensibilizando o interlocutor com palavras de sábio.

 

Há certos sábios, que depois de atingirem a estatura intelectual de reconhecimento chegam a inspirar um certo medo nos circunstantes. Estes preferem calar-se ante o perigo de emitirem opinião distante da altura do interlocutor. Não é o caso com Goffredo. Gosta de dialogar. Promoveu encontros semanais em seu escritório com jovens estudiosos. Desses encontros nasceu o livro no qual o direito, a ética e a justiça se entrelaçam, no melhor retrato de corpo inteiro possível para três temas tão controvertidos.

 

Também gosta das ciências físicas e naturais, colhendo nelas elementos transpostos para o direito, com utilidade multidisciplinar, na qual se projetam modos de interpretar e de avaliar os preceitos cogentes das normas jurídicas de maneira inovadora. Daí o encantamento do ler Goffredo em textos longos ou breves. Até no ler suas poesias.

 

Ficou dito que não seria caso de uma biografia, mas é difícil resistir a contar dois episódios. Um de nossa história pessoal, em 1977. Walter Maria Laudísio -que lamentavelmente se apartou muito cedo do mundo dos vivos- e eu apostamos um jantar, na casa do perdedor, sobre se a lei do divórcio sairia naquele ano (crença firme de Laudísio) ou se seria protelada para mais tarde, em virtude das forças que a ela se opunham (minha manifestação pessimista). Como a solução comportava alternativas, convidamos Goffredo para árbitro. Ele riu-se de nós e aceitou, amigo. Veio, com Maria Eugênia, jantar conosco. Outro episódio, mais recente, de 20 anos, Miguel Reale Junior presidia a Associação dos Advogados de São Paulo. Eu era seu vice-presidente. A diretoria, sabedora da Carta aos Brasileiros, solidarizou-se com ela. Aplaudiu-a com a força de seus muitos associados Muito me alegra lembrar que estivemos com Goffredo nesse momento e em outros. É bom estar com os bons. É o que me pareceu de dizer ao mestre. Com carinho.


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*Artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo de 14/5/05, p. C2